KataxaGuias práticos sobre Cotações e finanças
Renda Fixa

Como ajustei minha exposição ao Tesouro Selic diante do início do ciclo de corte de juros em 2026?

Relato detalhado da migração de carteira do Tesouro Selic para títulos de longo prazo travando taxas reais acima de 6% antes do recuo efetivo da Selic.

Mariana Costa
Mariana CostaEditora Chefe de Câmbio e Commodities6 min de leitura
Imagem editorial ilustrando Como ajustei minha exposição ao Tesouro Selic diante do início do ciclo de corte de juros em 2026?

No início de 2025, minha carteira de reserva de emergência e excedentes de liquidez era um espelho da conformidade. Eu mantinha cerca de 70% do capital alocado no Tesouro Selic 2029, fascinada pela simplicidade de um ativo que rendia a taxa básica de juros diariamente com a menor volatilidade possível. Quando a Selic estava estabilizada em 10,75% ao ano, a lógica era inquestionável: dificilmente um CDB de grandes bancos bateria a isenção de IR do Tesouro com a mesma liquidez.

O cenário mudou rapidamente. Com as minutas do Comitê de Política Monetária (Copom) de março de 2026 já indicando uma inclinação mais dovish, vi que o "paraíso" da liquidez imediata tinha um preço oculto que eu não estava disposta a pagar: a erosão garantida do rendimento real. Eu não queria ser a investidora que chorou os 10% perdidos por não ter saído da porta giratória a tempo. A decisão foi dolorosa, mas necessária: migrar o capital do "agora" seguro para o "futuro" incerto, porém mais rentável.

A matemática da inércia no Tesouro Selic

O maior erro do pequeno poupador em ciclos de queda de juros é paralisar a carteira. Vamos aos números frios. Se eu tivesse mantido R$ 50.000 no Tesouro Selic 2029, com a Selic caindo de 10,75% para, digamos, 9,00% ao ano ao longo do próximo semestre, minha rentabilidade líquida cairia proporcionalmente. Parece pouco? Em um ano, a diferença de 1,75% na taxa básica, descontando a inflação projetada, reduz meu poder de compra significativamente.

A inércia é confortável porque o Tesouro Selic tem quase zero risco de marcação a mercado (MTM) para quem carrega até o vencimento. O preço do título não oscila tanto quanto o de uma NTN-B de longo prazo. Porém, essa estabilidade é ilusória quando olhamos para o custo de oportunidade. Ao continuar no Selic, eu estava aceitando uma rentabilidade que eu sabia que seria menor amanhã. Em finanças, ficar parado em um ativo cujo retorno fundamental está caindo é, na prática, assumir uma perda.

A decisão de sair não foi baseada em pânico, mas em um cálculo de duration. Eu precisava subir na curva de juros.

Por que optei pela NTN-B Principal 2035 em vez de Prefixados?

O mercado brasileiro oferece basicamente três saídas para fugir da queda do Selic: CDBs prefixados, LTNs (Tesouro Prefixado) e NTN-Bs (Tesouro IPCA+). Eu descartei os prefixados puros (LTN e CDB) porque, neste momento de 2026, a inflação ainda é uma variável incerta. Embora a inflação esteja controlada, choques de preços administrados ou desvalorização cambial podem comer a rentabilidade nominal. Eu não queria apostar que a inflação ficaria abaixo de 3,5%; eu queria proteção contra ela.

O foco foi a NTN-B Principal com vencimento em 2035. Esse título paga IPCA + 6,08% (taxa que observei no pregão de 22/05/2026). Eu estava travando uma taxa real (juros acima da inflação) que dificilmente veremos novamente se a Selic cair para patamares de dígito único.

Detalhe fotográfico relacionado a Como ajustei minha exposição ao Tesouro Selic diante do início do ciclo de corte de juros em 2026?

Outro ponto crítico foi escolher a NTN-B Principal (que paga tudo no vencimento) em vez da NTN-B com Cupom Semestral. Como o objetivo aqui é maximizar os juros compostos sobre o IPCA, não quero receber os cupons agora e ter a dor de cabeça de reinvestir esse dinheiro a taxas piores. Prefiro que os juros corram dentro do próprio título. É preciso ter estômago para a volatilidade de preço: a NTN-B 2035 pode oscilar 5% ou 6% em um único mês se as expectativas de inflação ou dólar mudarem. Se eu precisar resgatar antes de 2035, posso levar prejuízo no preço de mercado. Contudo, como esse é dinheiro para longo prazo, a oscilação de preço é um ruído, não um risco real.

O risco cambial oculto na minha nova alocação

Ao migrar para a NTN-B, eu indiretamente assumi uma exposição maior ao Dólar dos EUA. Se o câmbio disparar, a inflação brasileira tende a subir, e o IPCA+ protege meu capital. Porém, o Banco Central pode reagir elevando a Selic, o que faria o preço da minha NTN-B cair no curto prazo. É um jogo complexo.

Para me blindar, não coloquei todos os ovos na cesta da renda fixa atrelada à inflação interna. Mantive uma pequena parcela — cerca de 15% — em ativos ligados a commodities, que servem como hedge natural contra a desvalorização do Real. A volatilidade do dólar afeta diretamente nossos preços, e saber como a seca nos EUA afetou meus investimentos em soja na B3 me ensinou que o agro brasileiro reage de forma inversa a crises cambiais. Se a inflação dispara por conta do câmbio, a soja tende a valorizar, compensando perdas em outras frentes.

Detalhe fotográfico relacionado a Como ajustei minha exposição ao Tesouro Selic diante do início do ciclo de corte de juros em 2026?

Além disso, preciso monitorar o dólar do comércio exterior de perto. Uma inflação de serviços desancorada pode forçar o Copom a ser mais agressivo do que o mercado precifica. Acompanho a Ptax diariamente, e se você quer entender essa dinâmica sem se perder nos índices, recomendo ver como monitorar o dólar do comércio exterior com Ptax sem erro. Esse conhecimento é vital para prever se a NTN-B continuará sendo o melhor porto seguro ou se teremos um cenário de juros altos novamente, o que favoreceria o Tesouro Selic.

Execução da estratégia: o erro de vender tudo de uma vez

O primeiro impulso foi acessar minha conta na corretora, clicar em "vender" em todo o saldo do Tesouro Selic 2029 e comprar a NTN-B 2035 de uma só vez. Isso teria sido um erro técnico. O mercado precifica a queda dos juros antes de ela acontecer. Se eu entrasse com uma ordem de mercado de R$ 50.000 em um único dia, poderia pagar um preço injusto (spread mais alto), especialmente porque o volume da NTN-B 2035, embora líquido, tem spreads mais largos que o Selic.

Optei por uma escalação (averaging). Estou vendendo o Tesouro Selic em parcelas semanais de R$ 10.000 e comprando a NTN-B à medida que os recursos caem na conta disponível. Isso me permite suavizar o preço de entrada. Se a taxa da NTN-B subir (o que significa que o preço do título cai) na próxima semana por causa de algum ruído de mercado, eu compro mais barato. Se cair, compro mais caro, mas já estarei parcialmente posicionada.

Outro ponto de atenção é o Imposto de Renda. Vender o Tesouro Selic antes do vencimento pode gerar um ganho de capital tributável se o preço de mercado estiver acima do preço pago (marcação a mercado). Em 2026, com a curva de juros caindo, é bem provável que eu tenha um pequeno lucro nessa venda do Selic. Estou provisionando esses 15% a 22,5% de IR para não ter uma surpresa na declaração de ajuste anual de 2027. O imposto é o custo do "rebalanceamento tático".

Ajuste da reserva de emergência

Não posso virar as costas completamente para a liquidez. Mantive cerca de R$ 20.000 (o equivalente a seis meses de despesas básicas) no Tesouro Selic 2029. Isso é minha reserva de emergência de fato. O restante, que é o capital que posso "dar ao luxo" de deixar preso por quase uma década, foi para a NTN-B 2035 e uma parcela menor na NTN-B 2045.

A distinção é fundamental. O dinheiro que pode ser necessário para um conserto de carro ou uma cirurgia não pode estar sujeito a uma oscilação de preço de 10% para baixo em um mês de nervosismo no mercado. A rentabilidade desse pedaço menor vai cair junto com a Selic, e eu aceito isso pacificamente. O segredo não é ter a carteira perfeita, mas ter a carteira adequada para cada objetivo financeiro.

Migrar do Tesouro Selic em um ciclo de queda não é apenas "trocar de ativo", é mudar a mentalidade de "preservar capital absoluto" para "maximizar poder de compra futuro". Eu estou trocando a certeza do quanto terei nominalmente amanhã pela promessa de um rendimento real maior daqui a nove anos. Para mim, neste cenário de 2026, o trade-off vale a pena.

Leia em seguida