5 Razões para Não Resgatar seu LCI/LCA antes do Vencimento
Entenda por que vender sua LCI ou LCA no mercado secundário pode transformar um investimento seguro em prejuízo real, com cálculos de mark-to-market e perda de isenção.


Imagine a seguinte situação: você aplicou R$ 20.000 em uma LCI (Letra de Crédito Imobiliário) pagando 92% do CDI, achando que tinha o melhor dos mundos — rendimento maior que a poupança e isenção de Imposto de Renda. Três meses depois, o carro quebra no meio da rodovia ou surge aquela conta médica não prevista pelo convênio. A primeira ideia? "Vou resgatar essa LCI e pronto".
No Kataxa, eu vejo esse erro acontecer diariamente. O investidor olha para o saldo bruto da aplicação, ignora a frase "vencimento em 2029" e clica no botão de resgate. O que ele não vê é a matemática que acontece nos bastidores. Resgatar um título privado (LCI ou LCA) antes do prazo não é apenas tirar o dinheiro; é vender um ativo no mercado secundário com deságio, além de renunciar ao principal benefício desse produto.
Listei abaixo os motivos concretos pelos quais essa operação deve ser o seu último recurso, e não o primeiro.
Mark-to-Market: Por que seu saldo pode ser menor que o investido
A principal armadilha, e a menos compreendida, chama-se marcação a mercado (mark-to-market). Diferente da poupança ou de um CDB de liquidez diária, onde você ganha juros "lineares" todos os dias, LCIs e LCAs possuem um preço que flutua diariamente até o vencimento.
Se você comprou um título pagando 90% do CDI em janeiro de 2026, e em abril as taxas de juros do mercado subiram (tornando novos títulos mais atraentes), o seu título antigo se desvaloriza. Quem compra de você no mercado secundário só vai aceitar pagar um preço menor, justo para compensar o fato de aquele título agora render menos que os novos.
Exemplo prático: você aplicou R$ 10.000 em uma LCI. Por conta de uma alta volatilidade no cenário macroeconômico recente, o preço unitário desse papel caiu. Se você pedir o resgate antecipado hoje, a corretora vende o título por R$ 9.700. Você não perdeu só os juros que iria receber; você perdeu parte do principal. Isso não aparece no extrato como "tarifa", aparece como "valor de resgate". Para entender aprofundadamente como esse cálculo é feito pela instituição, recomendo ler Como Calcular o Preço Unitário de um Título de Renda Fixa no Secundário.

O IOF nas primeiras 24 horas e o prejuízo garantido
Existe um equívoco comum de que LCI e LCA são livres de qualquer tributo. Elas são isentas de Imposto de Renda, mas não estão imunes ao IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) em resgates de curtíssimo prazo.
Se o dinheiro parou na aplicação por menos de 30 dias, o Leão cobra uma alíquota regressiva de IOF sobre o rendimento bruto. No primeiro dia, a alíquota é de 96%. Imagine que sua LCI rendeu R$ 100 em 20 dias. O IOF vai cobrar algo em torno de 50% a 60% desse valor (dependendo do dia exato). Você não perde o principal, mas perde quase todo o ganho que acumulou.
Aqui a regra é simples: se você aplicou ontem e precisa do dinheiro hoje, esqueça o resgate. Se você realmente precisar desistir do investimento tão cedo, o prejuízo fiscal é praticamente garantido.
A liquidez de títulos privados não é igual à do Tesouro Direto
Muitos confundem a "liquidez diária" dos CDBs de grandes bancos com a liquidez das LCIs/LCAs. No Tesouro Direto, quando você vende um título antes da hora, existe um mecanismo de leilão centralizado que, embora sujeito a preço de mercado, é bastante ágil. Com títulos privados, você está negociando com o estoque da própria corretora ou do banco emissor.
Não é raro que, em momentos de estresse no sistema financeiro, as corretoras "fechem a porta" para compras de títulos privados ou aumentem brutalmente o spread de negociação. Ou seja, você até consegue pedir o resgate no app do Banco Inter ou da XP, mas a liquidação financeira pode levar dias úteis (D+1 ou até D+5) em vez de ser instantânea como num Pix.

Você paga o Spread da corretora na hora de vender?
Quando você compra uma LCI, geralmente não paga taxa. O banco emissor paga a corretora para distribuir o título. Porém, na venda antecipada no mercado secundário, essa conta pode mudar de figura.
A corretora precisa encontrar um comprador para o seu título. Para isso, ela pode aplicar um "spread" (uma margem) sobre a operação. Se o preço justo do mercado seria R$ 10.000, a corretora pode vender sua posição por R$ 9.980 para garantir a operação ou cobrar uma pequena taxa de saque que não existia no momento da aplicação. São centavos ou reais que, somados à variação de mercado, corroem o patrimônio. Eu já vi casos onde o investidor, assustado com a queda do valor de mercado, vendeu o título e pagou uma taxa de negociação de R$ 50 na classe Renda Fixa apenas para sair da posição.
Perder a isenção de IR torna o negócio inviável matematicamente
Vamos à razão mais óbvia, mas frequentemente ignorada na pressa: matemática financeira pura. A LCI e a LCA negociam uma rentabilidade ligeiramente menor que a de um CDB de mesmo risco para compensar a isenção fiscal.
Suponha que você tenha uma LCI a 90% do CDI. Hoje, encontrar um CDB de qualidade (de banco médio ou grande) pagando 100% do CDI é comum. Na ponta do lápis, um CDB a 100% do CDI, descontando o IR de 22,5% (para prazos acima de 2 anos), rende líquido 77,5% do CDI. A LCI a 90% rende líquido 90%. Você sai na frente com a LCI.
Agora, se você resgata a LCI antecipadamente com prejuízo ou mesmo no valor de custo, e precisa aplicar esse dinheiro em algum lugar enquanto não gasta, para onde ele vai? Provavelmente para um CDB de liquidez diária que paga menos (talvez 80% do CDI). Ao fazer isso, você perdeu a proteção da alíquota zero. Se você precisa de liquidez, o planejamento deveria ter sido feito com CDBs ou Tesouro Selic desde o início, e não com títulos privados de longo prazo.
A alternativa estratégica ao resgate
Se você está em 2026 e se deparou com uma necessidade de caixa urgente, mas seus recursos estão travados em LCIs com vencimento em 2030, pare para respirar. Antes de clicar em "resgatar", faça duas contas: o custo real do deságio na venda do título versus o custo de um empréstimo pessoal ou cheque especial por alguns dias. Se a taxa de juros do seu empréstimo for menor que o prejuízo da marcação a mercado, financeiramente compensa pedir emprestado e pagar quando possível, mantendo o investimento até o final.
O maior erro não é precisar do dinheiro, mas sim não ter separado sua reserva de emergência (que deve estar em Tesouro Selic ou CDB com liquidez imediata) dos seus investimentos de longo prazo. Não misture as coisas. O prejuízo de desmontar uma estratégia de isenção fiscal antes da hora é um erro que o seu patrimônio demora anos para perdoar. Se a dúvida persiste sobre risco versus retorno de crédito privado, vale a pena revisar a comparação em Debênture Incentivada vs CDB de Banco Pequeno: Risco x Retorno.

